A Felicidade na simplicidade, só minha: Felicidade Clandestina

Felicidade Clandestina, livro de Clarice Lispector, é a análise desta semana do jornalista Danilo Vizibeli. Publicado pela editora Rocco, a obra reúne contos que giram em torno de uma reflexão sobre nossas promessas de felicidade

Danilo Vizibeli

Estava decidido que não iria ler Clarice Lispector esse ano, afinal a proposta é ler a obra completa de Machado de Assis e Jorge Amado, promessa que sequer comecei a cumprir. Veio, então, um pedido de Letícia Ribeiro, na minha página Intertexto no Facebook, onde coloco as novidades do meu canal de vídeos do YouTube – Intertexto: Português, Literatura e Redação – e também as postagens deste blog. Mas dá para ficar sem ler Clarice?

Nas páginas de Felicidade Clandestina (Ed. Rocco) descubro as escritas por meio do inconsciente e do jogo com as palavras. O clandestino dá ideia de intimidade, de roubado, secreto ou até mesmo usurpado. O livro começa com o conto homônimo em que uma menina fica fascinada ao saber que a amiga possuía em casa um exemplar de “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. O pai dela era dono de uma livraria e deu de presente a ela. Guardava então aquele tesouro precioso. A menina ruiva pede emprestado o livro e a outra não se opõe a emprestá-lo e pede que passe em sua casa mais tarde. Ao chegar lá, ela mente que o livro não está lá e, assim, vai acontecer sucessivamente, todos os dias, até que a mãe da menina abre a porta, um certo dia, e entrega a grande mentira da filha: o livro nunca saíra de lá. A menina pega o livro e não se contenta de felicidade. Mas ao mesmo tempo não o lê. Fica olhando, uma felicidade de ter ou não ter.

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No geral, a temática do livro gira em torno de uma reflexão sobre nossas promessas de felicidade que esbarram, muitas vezes, em alguma forma de interdição, sofrendo quase sempre de um eterno adiamento. De acordo com a professora de Literatura Gisele Oliveira, “ser feliz torna-se assim um estado em que nos encontraremos sempre no amanhã, que por sua própria natureza, nunca chega. Quem, quando criança, ao subir uma longa rua nunca imaginou que daria para tocar as nuvens e o céu ao chegar na próxima esquina? Bastava chegar lá para a impressão se desfazer, mas as esperanças se renovarem para uma ou algumas esquinas adiante, onde mais uma vez o horizonte se adiaria. Isso pode nos levar a pensar que talvez o fim seja apenas o lugar ou o instante em que o infinito e o horizonte renascem, e, por conseguinte, onde a esperança ou o desespero reencarnam em nosso corpo. Porém, mais ainda, é perceptível o fato de que mesmo que o céu esteja sempre fugindo de nossas mãos, nós o sentimos já um pouco em cada nova promessa de alcançá-lo”.

Clarice nos permite ainda fazer reflexões e questionamentos como: onde a felicidade mora mais, na promessa ou naquilo que se cumpre? O fato de quase sempre se negar a nós não seria apenas uma provocação da felicidade para que a encontremos justamente no proibido?

Antes de comentar brevemente alguns dos contos que Letícia Ribeiro me pediu para o Vestibular da UFU (Universidade Federal de Uberlândia), até porque é impossível para uma resenha abordar os 25 contos clariceanos, quero falar do conto “Cem anos de perdão”. Nele há um roubo de uma rosa de um palacete no centro da cidade e depois de uma pitanga roubada antes do tempo de amadurecer. E, assim, termina o conto: “As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens”. Neste e em tantos outros contos está o tema da infância versus a maturidade. O desejo inocente e o desejo proibido da carne, da sexualidade, de humanos. Há uma humanidade muito presente em Clarice, em questionar a mente e seus desvarios. Como no conto, quem nunca apertou um interfone ou campainha e saiu correndo? A minha felicidade é clandestina porque se esconde na raiva, e no sofrimento do outro. Em termos de linguagem, a estética de Lispector é um rompimento. Há o fluxo de consciências, as interrupções, as narrativas não sequenciais.

Pedacinhos estilhaçados

Passando ao pedido recebido comecemos com “A legião estrangeira”, cuja temática é uma menina curiosa que sempre visita a vizinha e descobre então um pintinho escondido na cozinha – um recurso para brincadeiras dos filhos da dona da casa. Ao final, aquela menina inocente, mas adultizada, mata o pintinho e sai de fininho, sem dizer nada. O que nos leva ao brincar e ao matar? Acabar com a felicidade do outro? Eu não tenho, mas ele também não terá. Quero a felicidade só para mim. É um questionamento da ordem e da moral que está presente também em “Os obedientes”, um casal que segue todas as normas e convenções e que, ao final, a mulher já enfadada da vida comete um suicídio ao se atirar do prédio. Novamente, a morte, como o escape da felicidade que não vem. Mostra-nos Clarice que o riso anda muito próximo da dor. Riso este que Sofia, em “Os desastres de Sofia”, gosta de provocar ao debochar o professor gordo e sorumbático, atrapalhado. Aquele que ela sempre critica e enche de apelidos é quem vai perceber que ela tem uma veia poética muito grande e escreve um belo texto. O professor e a aluna, o amor e o não-amor, o poder e não poder.

Em quais amarras nos colocamos, o que nos prende neste mundo? Em “A criada”, uma empregada que as vezes rouba algumas coisas da despensa, mas um dia encontra uma floresta e ali ela é genuína, é ela mesma.

Tantas histórias, tantas felicidades clandestinas, mas o vigor metalinguístico de Clarice Lispector, em explicar o processo de escrita e questionar a linguagem não poderia ficar de fora, como ela faz em outros textos. Em “A quinta história”, a autora marca a alegria dos enredos (e dos enredos da vida) mas que sempre se repete, a eterna paráfrase autoral, e lá pelas tantas escreve a quinta história mas que começa como a primeira: “queixei-me de barata”.

Por fim, “O primeiro beijo” traz uma carga erótica ao livro, carga esta que não passa despercebida nos demais textos pois há sempre uma polissemia – multiplicação de sentidos outros – na linguagem como erótica das vivências, como parte do corpo que se contorce em prazeres, em descobertas e em metáforas do desejar, amar e (re)significar. É assim que um menino vai ao beijo com uma estátua numa fonte de água cristalina. Nesse beijo ele descobre-se “homem”. Pensa-se, assim, no orgasmo sexual masculino, ou seja, a ejaculação, mas isso não é dito claramente no texto. É assim que interpretamos numa poética que se faz de pedacinhos estilhaçados que se juntam para mostrar que o ser humano é feliz no simples, mas quase sempre a experiência da felicidade (ou da tristeza também, por que não?) é intimista e feita no corpo íntimo (na mente, no psiquismo) de vida de cada um, por que sempre será uma Felicidade Clandestina. O que queremos esconder ou mostrar? O que queremos roubar? O que somos nós e onde estamos? Onde está você e eu e o contrabando das nossas felicidades? Onde se marca nossa identidade!

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